Por mais preconceituoso que seja, não dá para fugir: a forma como a
pessoa fala, se veste, age, trabalha, dirige e muitas coisas mais dizem
muito sobre o indivíduo. Dá para julgar cada um por esse tipo de coisa?
Cada um avalie da forma como achar melhor.
Da mesma forma, os hábitos culturais – os livros que lê, a música que
ouve, os eventos frequenta – também dizem bastante sobre as pessoas.
Existe a chance de se errar por completo, mas faz parte do jogo.
No começo de agosto um gerente de uma grande multinacional instalada
no ABC (Grande São Paulo) penava para contratar um estagiário para a
área de contabilidade e administração. Analisou diversos currículos e
entrevistou 24 jovens ainda na faculdade ou egressos de cursos técnicos.
Conversou com todo o tipo de gente, do mais certinho ao mais
despojado, do mais conservador à mais desinibida e modernosa.
Preconceitos à parte, procurou focar apenas a questão técnica e os
conhecimentos exigidos.
Alguns candidatos até possuíam a maioria dos requisitos exigidos, mas acabaram desclassificados em um quesito fundamental para o gerente: informação geral, que inclui hábitos culturais.
Alguns candidatos até possuíam a maioria dos requisitos exigidos, mas acabaram desclassificados em um quesito fundamental para o gerente: informação geral, que inclui hábitos culturais.
O escolhido foi um rapaz de 20 anos, o penúltimo a ser escolhido. Bem
vestido, mas de forma casual, usando rabo de cavalo, mostrou segurança e
certa descontração, além de bom vocabulário e de se expressar de forma
razoável, bem acima da média.
Durante as perguntas, o gestor observou que o garoto segurava um
livro e carregava um iPod. O livro era a biografia de Eric Clapton. Após
a quinta pergunta, direcionou a conversa para conhecimentos gerais e
percebeu que o rapaz lia jornais e se interessava pelo noticiário.
“Você gosta de rock?”, perguntou o gerente. “Sim, e de jazz também”,
respondeu o garoto. O entrevistador não se conteve e indagou se o rapaz
se importava de mostrar o que o iPod continha. E viu um gosto eclético
dentro do próprio rock: havia muita coisa de Black Sabbath, Deep Purple,
AC/DC, mas também de Miles Davis e big bands.
“Não aprecio rock, não suporto o que minhas filhas ouvem, mesmo seja
Rolling Stones, meu negócio é Mozart, Bach e música erudita. Mas uma
coisa eu aprendi nas empresas em que passei e nos processos seletivos
que coordenei: quem gosta de rock geralmente é um profissional mais
antenado, que costuma ler mais do que a média porque se interessa pelos
artistas do estilo. Geralmente são mais bem informados sobre o que
acontece no mundo e respondem bem no trabalho quando são contratados. Nunca me arrependi ao levar em consideração também esse critério”, diz o gerente.
O resultado é que o garoto foi contratado após 15 minutos de
conversa, enquanto cada entrevista com os outros candidatos durava 40
minutos. “Não tive dúvida alguma ao contratá-lo. E o mais interessante
disso: percebo que essa é uma tendência em parte do mercado há pelo
menos três anos, pois converso muito com amigos de outras empresas e
esse tipo de critério está bastante disseminado. Quem gosta de rock é ao
menos diferenciado”, finalizou o gestor.
Seria um flagrante exagero afirmar que gostar de rock facilita a
obtenção de emprego ou estágio – ou que quem gosta de rock é muito
melhor aluno do que os outros nas escolas. Mas o simples fato de haver
reconhecimento de que apreciar rock frequentemente leva a uma situação
diferenciada já é um alento diante dos seguidos casos de intolerância e
preconceito.
Gostar de rock não torna ninguém melhor ou pior, mais ou menos
competente, mais ou menos inteligente. Mas o
roqueiro pode se beneficiar de situações em que é possível se mostrar
diferenciado, mostrando uma cultura geral acima da média e mais
versatilidade no campo profissional. E o que é melhor, isso começa a ser
reconhecido por um parte do mercado.
Bom gosto não se discute: adquire-se.
Fonte: Combate Rock - Jornal da Tarde (blogs.estadao.com.br)
Fonte: Combate Rock - Jornal da Tarde (blogs.estadao.com.br)

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